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Caxola O Novo Os esplendorosos fogos de Copacabana iluminarão a chegada do meu ano de 2006. Estarei lá. Pensarei em todos os que estiveram ao meu lado nesse tortuoso 2005. Que me fez perder a fé, para em seguida recuperá-la. Que me distanciou dos amigos, para depois trazê-los de volta. Que me tirou um trabalho, para apresentar-me outro ainda mais interessante. Que mudou os rumos da minha vida, para que eu cresça mais, chore menos, trabalhe em dobro e ame sempre. Para quem secou minhas lágrimas e sorriu para o meu coração em 2005, um ano N-O-V-O. Novas emoções, novas oportunidades, novos destinos, novos amores, novas perspectivas. Que tudo na nossa vida, bom ou ruim, seja apimentado pelo delicioso sabor do novo. "Me diz agora se você vem comigo ou se vai ficar. Eu já tô largando tudo, caindo fora. Nada mais me prende aqui nesse lugar. Tô mudando o meu destino. Joguei fora o que não presta. Agora eu quero mesmo e vou enlouquecer. É hora da virada partir pro tudo ou nada. Eu não tô com nem um tempo pra perder" [É hora da virada, de Ana Carolina] Escrito por Carolina às 15:04 [ ] [ envie esta mensagem ] Tinha que ser o Lula de novo
E quem explica os cochichos de Lula e Kirshner na semana anterior a final do campeonato? Logo eles que adoram presentear um ao outro com pegadinhas pastelão, como fugir de uma reunião importante às pressas no país hermano e coisas do tipo. Pois o corintiano mor da nação só podia tratar de um assunto, meus caros: Carlitos Tevez. Aposto uma barra de Alpino que Lula sussurrava para Kirshner em seu portunhol rasgado “Companheiro Tevez, ãhn! Caro, pero útil!”. Rios de dinheiro saindo da conta do Marcus Careca Valério e o Corinthians comprando Tevez. Coincidência estranhas, não? Portanto, amigo, antes de votar pra presidente em 2006, certifique-se do time para o qual o seu candidato torce. Ultimamente, esses políticos andam fazendo de tudo. Só pra levar a taça pra casa. Só por isso. A gente explode se for campeão. Depois se fode na eleição. A gente perde a copa e aprende a eleger quem é honesto e competente. Já dizia o General De Gaulle "Este país não é sério!". Mais vale um craque de gol que dois de araque no Ministério. Mas que mistério! Quem quer trocar a copa do mundo por um Brasil sem vagabundos. Chove chuva na terra do sol. Chove cartola no futebol. [M te vê, de Rita Lee] Escrito por Carolina às 12:13 [ ] [ envie esta mensagem ] Meu sobrenome é Saudade
Fabico querida...
Zero do meu coração... "Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei, as histórias, os caminhos, o destino que eu mudei. Cenas do meu filme em branco e preto que o vento levou e o tempo traz [...] Tem pessoas que a gente Escrito por Carolina às 23:43 [ ] [ envie esta mensagem ] Justificando minha longa ausência e agradecendo a paciência de vocês, seres iluminados da minha vida, reproduzo abaixo a minha parte preferida da suada monografia de conclusão de curso que acabei de entregar para a universidade. Dedico esta monografia à minha amorosa família, que me apóia desde os primeiros passos, com zelo e cuidado por minha formação moral e intelectual. Aos avós, sempre ricas fontes de conhecimento e sabedoria. Aos pais, responsáveis pelo ensino de qualidade que tive o privilégio de receber desde as séries iniciais. À carinhosa irmã Julia, cujos conselhos me acalmaram e me incentivaram nas horas difíceis. Aos professores, importantes referenciais para meu crescimento e amadurecimento ao longo desses quatro anos de dedicação. Aos amigos, com quem compartilhei momentos de felicidade e comemorei minhas conquistas. Aos colegas de trabalho, ao lado dos quais construí projetos profissionais e aprendi, na prática, o encantador ofício de jornalista. Prometo que, a partir de agora, escrevo mais poesia em prosa por essas bandas. Adeus, normas da ABNT! Escrito por Carolina às 22:55 [ ] [ envie esta mensagem ] Crianças protestam pela permanência de brinquedoteca no Museu da República Espaço lúdico corre o risco de ser fechado até o final deste mês
O 12 de Outubro das crianças do bairro do Catete, na Zona Sul do Rio, teve um ar de protesto este ano, quando os pequenos uniram suas vozes a cerca de 100 pais e educadores para pedir a permanência da Brinquedoteca Hapi no Museu da República. O espaço, que funciona há 13 anos no coreto do pátio do museu, recebeu da diretoria do órgão uma ordem de desocupação com prazo até dia 28 deste mês. A alegação do diretor Ricardo Vieiralves é de que há irregularidades no contrato de uso do coreto. A coordenadora da Hapi, Cristina Porto, reuniu pais e crianças na mobilização para compartilhar sua preocupação com o futuro do espaço lúdico: “Preciso informar a eles o que está acontecendo, para que a gente decida juntos a melhor forma de lutar por esse lugar.” O resultado foi uma passeata colorida por bandeiras, fantasias e cartazes escritos pelas próprias crianças. O grupo percorreu o pátio até a frente do Museu da República, entoando cantigas infantis e pedindo o não fechamento da brinquedoteca, que hoje atende a 80 sócios, além de receber visitas de escolas, creches e pesquisadores da área de Educação. Quem mais sentirá falta da Hapi, no entanto, são aqueles que fizeram do passeio à brinquedoteca um hábito, como as amigas Maria Helena Drumond, de 11 anos, desde os 2 freqüentadora do espaço, e Ana Luiza da Silva, 12, que vai ao coreto desde os primeiros meses de vida. A amizade das meninas começou na Hapi e se mantém até hoje em meio a jogos educativos e conversas no pátio do museu. Ana, fantasiada de noiva para a manifestação, explicou o porque de seu o pedido: “Seria muito triste não ter a brinquedoteca. Quando eu soube que ia fechar, não acreditei. Até que peguei uma carta da Hapi explicando tudo, levei para a casa e li para a minha vó em voz alta. Quando entendemos, choramos juntas.” Tão desolada quanto as crianças, a coordenadora da brinquedoteca, que recebeu o ofício informando sobre a desocupação do coreto das mãos de um entregador no dia 29 de setembro, procurou, no início deste mês, o diretor do museu para outros esclarecimentos e ouviu que a melhor alternativa para o impasse seria fazer um processo licitatório para o uso do coreto, período durante o qual as portas da brinquedoteca ficariam fechadas. Para a educadora Sonia Kramer, professora da PUC-Rio, no entanto, interromper o trabalho da Hapi dificulta as negociações e diminui a possibilidade de reabertura do espaço mais tarde. “A brinquedoteca tem que permanecer aberta até o término da licitação. Reconstruir um projeto como esse é extremamente complicado”, diz Sonia. A educadora ressalta ainda, a importância de especificar na licitação a finalidade dos projetos que podem se inscrever: “Precisa ser licitação para brinquedoteca. Não podemos abrir mão deste espaço público e urbano das crianças pequenas, que hoje têm cada vez menos lugares fora de casa para brincar.” O Conselho Tutelar entende como uma violação aos direitos da criança a tentativa de fechar a brinquedoteca e vai articular a questão junto ao poder Judiciário. A conselheira da Zona Sul Priscila de Melo Basílio acompanhou a manifestação e falou sobre a função da Hapi: “Sabemos que eles recebem, além dos sócios, alunos de escolas públicas e de creches comunitárias, então, fechar esse espaço é tirar das crianças o direito de brincar. Essa é uma das poucas brinquedotecas abertas e acessíveis à comunidade na região e mesmo na cidade”. Com o apoio recebido na manifestação, equipe do Hapi vai encaminhar à direção do Museu da República, na próxima semana, um abaixo-assinado e o pedido oficial para que a brinquedoteca possa continuar aberta até a definição dos aspectos legais de utilização do coreto, sem que seja necessário, para isso, tirar os brinquedos das mãos das crianças. Escrito por Carolina às 11:45 [ ] [ envie esta mensagem ] O Exílio
As belas pinceladas cinzas capturadas pela lente sagaz do fotógrafo Pedro de Moraes são meu motivo de fuga dos costumeiros temas do Caxola. É provável que vocês comecem a me ouvir falar em Glauber Rocha, Godard e Geraldo Vandré. Ou quem sabe em Guevara, Mao e Marx. Ora, não me olhem com esse semblante de espanto. Não sofri lavagem cerebral. Nem vendi minha alma a qualquer seita político-ideológica. Virei pesquisadora. Do cala-a-boca nos jornais. Dos estudantes de coração inquieto. Da ditadura burra e mesquinha. Época de sonhos sólidos e de realidades escorregadias. Rumo ao passado. 1968 agora é meu presente. Encantador presente. Exílio voluntário. Que meu professor orientador não suspeite desse atentado contra a objetividade científica. Nós, pesquisadores, precisamos ser frios. É o que dizem. Sob as cinzas cintilam brasas. Uma interrogação permanece: Ouviremos novamente o grito. Lançado por um anônimo soldado da primavera: ‘Sejamos realistas. Peçamos o impossível’. [Maio francês] Escrito por Carolina às 00:04 [ ] [ envie esta mensagem ] De carne e alma Nacos de carnes espalhados sob a laje branca. Restos picotados de gordura acumulados pelos cantos. Sangue salpicado na toalha alva. Numa cerimônia pagã de gula e luxúria, devoro quilos de boi, galinha e porco. Como se não fosse o bastante, complemento com arroz, batata, aipim e polenta. Disfarçadamente, abro um botão da calça jeans. Consigo respirar. Olhando pro triste cenário, lembro da camiseta que uma amiga usava dia desses. Dizia: ‘Acabe com a matança. Seja vegetariano.’ Mais do que a carne no estômago, me pesa na consciência a culpa. Por poucos minutos. Segundos, para ser mais sincera. Tempo que leva para a saciedade começar a liberar substâncias relaxantes na minha corrente sangüínea. E eu passar a rir de qualquer besteira que me falem. ‘Vamos embora, Carolina?’. E eu: ‘Embora? Quê? Rararararará!’. Ah, churrasco me faz um bem. Enquanto meu corpo cuida da digestão, lembro que sou, invariavelmente e irremediavelmente, gaúcha. De corpo e alma. De forno e fogão. De churrasco e chimarrão. De cassetinho e chimia. De cuca e mumu.* * Glossário aproximado dos termos em gauchês: cassetinho = pão francês chimia = geléia cuca = tipo de pão doce com farofa de açúcar mumu = doce de leite
Saudades da comida da vovó... Escrito por Carolina às 15:40 [ ] [ envie esta mensagem ] Da dor, a Paz
Pela janela de tela azul e antena, vejo um soldado retirar seu irmão da casa da família. No peito do militar, uma estrela de Davi. A mesma da bandeira fincada na porta do edifício. Ele chorava. Com um empurrão suave como um sopro de moribundo, expulsa seu irmão, sua cunhada, seus pequenos sobrinhos. O cachorro marrom brinca com o cadarço da bota do soldado, seu velho conhecido dos almoços de domingo. Mas hoje não é um dia como aqueles domingos ensolarados. Os irmãos estão em trincheiras opostas. Quando o cão percebe isso, a porta do ônibus cinzento já está cerrada. E a família, longe. E a família, dilacerada.
Mesquitas são praças de guerra. Tinta é arma letal. Homens arrastados pela areia. Com os braços e pernas presos, levantam o indicador e berram. Resistem. Mães abraçam seus filhos e choram. Não os verão crescer naquele solo. Naquele solo que aprenderam a amar. A dor deve compensar. Naquela terra há de surgir a paz. Precisa surgir a paz. Da dor, a paz. "Se a fé move montanhas. O orgulho move os exércitos. E aqui estamos. Num mundo de montanhas implodidas. E de exércitos desacreditados. É a guerra. É a morte. É a dor." [Paz Ferida, de CaroLina] Escrito por Carolina às 15:36 [ ] [ envie esta mensagem ] A história de Carolina Colorida
O artigo mais intrigante que achei, no entanto, foi um diário de capa amarela que acompanhou boa parte da minha infância. Os primeiros escritos datam de 27 de dezembro de 1991. Em meio a uma sucessão de relatos rotineiros, encontrei uma página que sussurrou algo ao meu coração e empurrou um cisco ao meu olho. Deixei cair lágrimas nas folhas rosadas do diário. Um choro embalado por lembranças boas. Ritmado por sentimentos tão antigos que, surpreendentemente, continuam recentes. Aos oito anos, eu escrevia assim:
Porto Alegre, 28 de outubro de 1993
Hoje eu ganhei dois livrinhos do pai e da mãe, eles são: O Pequeno Príncipe e Carolina Colorida. Eu não li ainda O Pequeno Príncipe. Eu vou ler amanhã. Mas eu já li e eu gostei do Carolina Colorida. Então, diário, eu vou te contar a história dele:
Carolina Colorida
A história de uma menina que morava em um mundo que não tinha cores. Ou melhor, tinha duas: uma branca e outra preta. Às vezes, as cores se juntavam em cinza bem clarinho. A menina sonhava com um mundo colorido, mas acordava sempre triste porque era só um sonho. Um dia ela acordou feliz e foi ao espelho para ver a cara de feliz. Aí ela viu o que ela tanto sonhava, sua boquinha estava vermelhinha. Ela correu pelo jardim, contou para as rosas e as beijou. As rosas ficaram vermelhas. Depois ela foi ao lago e chorou de emoção. As suas lágrimas azuis caíram no lago, que ficou azul. Depois foi pegar um balde de água azul e derrubou na sua roupa que ficou verdinha. Os pingos caíram no chão e a grama ficou verde. De repente, Carolina acordou triste, porque tudo isso era sonho. Foi no quintal e achou cinco pedrinhas coloridas. Com as pedrinhas, ela pegou um pincel e coloriu seu mundinho.
FIM Escrito por Carolina às 18:33 [ ] [ envie esta mensagem ] O calor de um coração de pedra
Ela é feita de prata. Esculpida em um bloco compacto de metal pesado. O Artesão-mor criou suas formas com precisão. Nada sobra. Nada falta. Em seus olhos colocou o brilho vago de uma noite sem lua. E em suas mãos, restos da luz de um vaga-lume. Forjada a marteladas, a bela sustenta sua pose altiva com a leveza de uma pluma ao vento. Com os pés fincados no centro da cidade, lá está a estátua.
Para compensar o sorriso estrelado, o Artesão-mor colocou-lhe no peito um coração de pedra. Disse-lhe, ainda, que jamais poderia amar ou chorar. Por mais que transeuntes jogassem à estatua beijos de amor, ela não poderia corresponder. Por mais que os pombos lhe lançassem bombardeios, não poderia lançar mão de seu estilingue contra as aves. Era de impecável beleza. E de intocável perfeição. Intocável. O Artesão-mor tratava de guardar sua mais preciosa obra em um alto pedestal.
Freqüentadora de pracinhas pacatas, eu passei, dia desses, em frente a estátua. Arregalei os olhos. Agucei os ouvidos. Escutei um sussurro. Não distingui as palavras. Estava a dois passos da escultura. Espalmei minha mão atrás da orelha direita. “Liberte-me, menina de olhos d’água”. Fitei seu rosto sereno. A voz angustiada não era ouvida no semblante tranqüilo. Estiquei minha mão, na tentativa de ajudar a estátua a sair de seu palanque. E eis que, ao toque de meus dedos, ela se move. Como num encanto, a bela prende firme minha mão. Dá-lhe um longo beijo. Com a mornidão dos beijos de amor. Sorri plena. Segura a barra de sua túnica e desce majestosa. Assim vai-se a intocável peça. Rumo ao breu esfumaçado da noite. Escrito por Carolina às 03:18 [ ] [ envie esta mensagem ] Café forte Caravana rumo a maior emissora de rádio da cidade. Estudante de jornalismo faz dessas. Eu, permanente candidata a bons estágios, me travesti de gente normal. Calça preta de menina séria. Camisa de botões combinando com os olhos. Empurrão daqui e puxão dali pra equilibrar os cachos sob a cabeça. E good night para o estrelado esmalte laranja. Acompanhada dos coleguinhas, espero o jornalista-guia em uma saleta branca. Tão branca que parece a ala cirúrgica de algum hospital. Em minha pose de boa moça, cruzo as pernas. Pra passar o tempo, uns pensamentos começam a dançar. As redações nunca mais serão como eu sonhei, sabe? Tec-tec de máquina de escrever. Fumaça grossa de cigarro. Homens de terno risca-de giz. Ah, esse jornalismo esterilizado de hoje. Jornalismo estéril isso sim. Nasci na época errad... “Bom dia!”, sorri o nosso mestre de cerimônias. O moço de camisa bem passada pede-nos para aguardar por mais uns giros do ponteiro. Gentil, oferece-nos café e aponta a máquina num canto da sala. Hum. Vício apaixonante. Espano os pensamentos utópicos e avanço sob a geringonça. Finalmente algo parecido com o jornalismo a que tanto eu almejo. Uma máquina bege. Do tamanho da mesa da minha cozinha. Com quatro grandes manivelas na frente. Com idade para ser avó do meu avô. Pego um copinho. Posiciono embaixo da legenda “café”. Estendo meus dedinhos. Giro o botão. Dou um pulo pra trás – discreto - já que meninas comedidas são assim. Ao invés do moreno líquido escorrer fumegante da torneira, um jato marrom é laçado. Não ocupa nem 1/5 do copo. Giro de novo a manivela. E de novo. E de novo. E mais uma vez. Pra compensar o pão-durismo desse pessoal. Agora sim dá pra aceitar. Levo o sonhado pretinho à boca. Quase me engasgo....com o PÓ de café. Sim, amigos. Aquela manivela era só parte da acalentadora bebida. Sem despertar suspeitas dos colegas, me preparo pra jogar o morro de café no lixo. Mas, eis que surge no bloco cirúrgico o nosso guia. Eu, menina educada, num gesto de sutileza, mudo o curso do copinho para baixo da manivela “água quente”. As poucas gotas que ainda cabem no copo se misturam aos grãos marrons num aromático lamaçal. Discreta, viro o pote de adoçante de cabeça pra baixo em cima do copinho. Larari. Larará. E agora, a pior parte. Beber. E continuar com meu rostinho impávido. O jornalista nos espera. Eu, de um gole e meio, sorvo o café preto mais forte da história . Efeito imediato. Careta, já sou ligada na tomada. Com minha dose de pretinho duas vezes por dia, 220 wolts. Com a cumbuca de café forte, meninos, foi curto circuito no ato. Faísca pra tudo o que é lado. Virei a mais perguntadeira da excursão. Mas como vocês fazem a produção? Quantas pessoas trabalham na reportagem? Como vocês escolhem a programação musical? Verdade que a Rádio Tal vai sair do ar? Mas por quê? Por que sim? Por que não? E porque não daquele outro jeito? Rádio, programa, locutor, música, ouvinte, microfone. Distribuí interrogações para o que apareceu na minha frente. A perguntinha que não quer calar, no entanto, ficou para trás, em nome da finesse. Custava avisar que tinha que misturar com água?
Escrito por Carolina às 02:35 [ ] [ envie esta mensagem ] A poeta nua
É. Esse é um texto auto-referencial e baseado em fatos verídicos. Tudo o que eu falar diz respeito a mim mesma, menina de cabelos confusos e idéias encaracoladas que tu já conheces tão bem. Conheces? Ou será que entrastes aqui pela primeira vez? Quem és tu que me espreita com esse ar curioso sem que eu saiba? Cubro meus ombros com uma manta grossa. Quem pensas ser para olhar assim meus tornozelos? Puxo um xale até o pescoço. Minhas maçãs do rosto se avermelham. Aperto o lábio entre os dentes, acanhada por ser observada assim, tão de perto, por alguém cujo nome sequer conheço. Abrir meu coração para ti me provoca arrepios. Não sei o que farás com as labaredas e com as pedras de gelo que lá encontrares. E se jogares princípios de incêndio em folhas secas? Ou fizeres pesar meus cubos de neve? O que poderia eu fazer para reagir a tais insultos? Nada. Estou nua. Estou à mostra para quem digita o endereço ali de cima. Isso assusta. Assusta tanto quanto encontrar um desconhecido no meio da sala ao chegar em casa. Sentado com os pés em cima da mesinha de centro. Olhando os quadros surrealistas que pendem das paredes, enquanto me rouba um cigarro. Assusta ver alguém entrar assim em meus pensamentos. De onde vieram tantas pessoas bater na minha porta? Interessados em minhas palavras rimadas, esses transeuntes deixam bilhetes, escrevem cartas, esquecem pratos na pia da cozinha. Varro os rastros dos desconhecidos que vieram jantar sem aviso prévio. E sento na poltrona. Despida de panos. Nua de máscaras. Pra pensar em mais um texto. Fisgo um par de grandes olhos a me mirar. Cogito me esconder atrás de uma almofada. Bobagem. Para que servem as palavras se não para serem paridas e lidas? Para que escrevo senão para mostrar-me? Entre, camarada. Fique a vontade. A casa é sua. Escrito por Carolina às 03:03 [ ] [ envie esta mensagem ] Por um copo de água com açúcar "Em um primeiro momento não estaremos aprovando você para a próxima etapa. Mas estaremos mantendo o seu cadastro para uma eventual próxima oportunidade." E assim meu coração aperta como um limão prestes a virar limonada. Afrouxo à força o nó cego que se formou em minha garganta pelo tempo suficiente de balbuciar um obrigada-boa-tarde. E agora, José?, perguntaria Carlos Drummond de Andrade. Pra que lado eu sigo? E aquele posto a que me dediquei tanto. E aquela vaga sinônima de mudança, reconhecimento, dinheiro no bolso e cara na telinha. Tudo por água - lágrimas - abaixo. Me ponho a chorar. Chorar mesmo. Chorar muito. E por muito tempo. Soluço. Engasgo. Limpo o nariz na manga do casaco. Tusso. Espirro. Penso três vezes em tomar um gole de água da privada. Mas resisto. Vou buscar um copo de água com açúcar. Assim, devagarzinho, sentido os pequenos cristais doces em minha garganta, minha caxola volta a dar sinais de vida. Sentada na ponta da cadeira, com uma mão segurando a cabeça e outra, o copo, lembro da última vez que tomei água com açúcar. Há 10 anos. Aliás há mais de uma década que uso só adoçante, aspartame, sacarina, stévia. Essas drogas sintéticas e - dizem - saudáveis. Estou tão desabituada que nem sei ao certo quantas colheres colocar na água pra que ela fique adocicada a ponto de acalmar meu choro de nenê. Coloco quatro. Bem cheias. Já consigo respirar sem sentir meu peito pesado. Lembro da aula, que começa daqui a 30 minutos lá do outro lado da cidade. É bom que a minha rua seja assim escura. Posso chorar escondida e sozinha enquanto rumo ao metrô. Sem ninguém perguntar se está tudo bem. Porque, é claro, não está. Mas o trem é iluminado. E cheio. Seis da tarde. Todo mundo saindo do trabalho. Com os olhos um pouco embaçados por uma lágrima ou outra que teima em cair, enxergo com clareza a tristeza que cada um traz no rosto. Aquela melancolia escondida por trás de blush e batom. Por trás de bigodes e costeletas. Todos buscamos um copo de água com açúcar. Durante a vida inteira. Um copo transbordante. Daqueles bonitos. De tomar milk-shake. Um copo de vidro inquebrável. Translúcido como uma vitrine de loja. Dentro dele um líquido gelado. Doce. Reconfortante. A fórmula da felicidade em 500 mililitros de água com açúcar. Pra ser bebida de um gole só. Alívio imediato. Eu, tu, ele, nós, vós e eles procuramos o nosso jarro de felicidade. Apostei na caneca errada, creio eu. Ou os empregadores que "podem estar me chamando para uma possível outra oportunidade" erraram no copo escolhido. Podem ter optado por um copo de requeijão. Ou, pior, um copo de plástico furado. Ou ainda por um copo daqueles de amostrinha, sabe. Daquele pequenininhos e rasos, que quando a gente começa a sentir o gosto doce, termina. É uma pena. Mas sigo. Hoje - e sempre - na luta. Tenho ao meu lado pessoas de coração tão adocicado quanto um torrão de açúcar. Companheiros caramelados, que põe sabor nos meus dias e ânimo na minha alma. Eles são meus copos de água doce. Minhas preciosas compotas de alegria. "Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo. Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar. Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar" [Carolina, de Chico Buarque] Escrito por Carolina às 10:32 [ ] [ envie esta mensagem ] O dia dos [ex] namorados Para lembrar e para esquecer, nada melhor do que um domingo. Um 12 de junho silencioso e frio. Quero a companhia somente de meus pensamentos. Eles ocupam espaço suficiente em meu quarto bagunçado. Toco um jazz na caixa e me largo na poltrona. Aquela doce esperança de que o príncipe um dia vai chegar não existe mais. O aperto dolorido de uma paixão mal sucedida também se foi. Há muito. Meus meninos estão dentro do meu peito. Os que eu amei e que não me amaram. Os que me amaram e que eu não amei. Todos eles. Gastei tantas lágrimas com angústias coronarianas ao longo destes meus 15 anos de romances. Sim, pois lembro do primeiro piá por quem me apaixonei, quando tinha cinco anos. Assim como lembro do último cara por quem meu coração quase parou de bater. Talvez hoje seja o dia de lembrar para esquecer. Um dia dos ex-namorados. Revivo os beijos. Cada noite e cada amanhecer. Os versos que escrevi. E foram muitas as palavras rimadas. Vivi amores. Morri de amores. Cada história deixou uns 500 gramas de chumbo em meu peito. Com o tempo, esse contrapeso começa a fazer mal às costas. Hora de se livrar do excesso de carga. É hoje o dia ideal. Assim, esqueço de lembrar. Deixo pra trás o reencontro com que sempre sonhei. O dia ideal. O lugar ideal. O menino ideal. A Carolina ideal. É finda aqui a minha brava busca pelo par-perfeito. Chega de colocar lentes azuis pra ver a realidade. O pôr-do-sol desse 12 de junho nas pedras do Arpoador já é colorido o suficiente para alegrar meu peito. Para me fazer sair da poltrona e ir molhar os pés na água gelada do mar. Como fiz outro dia com Fulano, a quem jurei paixão eterna. E noutro ainda com Beltrano, com quem planejei casamento. Aliviem-se, meninos, parei de sonhar. Tears in my dreams. And rocks in my heart. It's that sly ole-sun-of-a-gun again. He keeps telling me that I'm the lucky one again. But I still have that rain. Still have those tears. And those rocks in my heart." [That Ole Devil Called Love, de Billie Holiday] Escrito por Carolina às 21:51 [ ] [ envie esta mensagem ] Em briga de cachorro grande, não se mete a colher No meio da praça, dois cachorros, velhos conhecidos do bairro, trocam rosnadas e mordiscadas. Uma mulher de cabelos amarelos e avental quadriculado bate com um pano de prato nos cuscos*, tentando a todo custo separar os bichos. A turma do almoço no bundinha-de-fora** da frente da praça, alvoroçada, segurou firme o pastel de carne moída e foi ver o que se sucedia. Eu diminuo discretamente a marcha e miro atenta o circo que começa a se formar em volta da rinha. Um late alto daqui, o outro mostra os caninos dali. Umas poucas mordidas no cangote, comportamento, aliás, muito desejável em algumas espécies deste mundinho de Deus. Mas, para os homo sapiens já estava na hora de terminar a sessão de selvageria entre os quadrúpedes. Afinal, os que se equilibram sob dois cambitos também têm o direito. Os pastéis de carne terminaram. Os homens e mulheres devoram agora as próprias unhas, caminhando, enlouquecidos, em volta da arena da briga. Nervos. Nervos à flor da pele. Uma velha bem gorda e seu berrante vestido de grandes flores vermelhas e roxas sugerem: "Água quente! Água quente, meu povo! Quedêlhe?" Abdicando ao posto de sirene, a mulher-laaarga voa para a cozinha do bundinha-de-fora. Em dois toques, lá está ela com uma chaleira fumegante na mão. Tensão. Novo silêncio. Ninguém se move. Ninguém ousa dizer: "Será?". Dei três passos à frente. Completamente incrédula. Foi aí que o cachorro maior, que antes saboreava as canelas do rival, espiou com o canto do olho a cara inchada e empipocada da mulher que segurava a chaleira de água escaldante. O cusco mexeu as sobrancelhas para o companheiro de ringue. Num acordo de lordes, eles acharam por bem fazer as pazes, antes que virassem sopa. Foram-se, lépidos e faceiros, abanando o rabo rua abaixo. Pensando que humano é mesmo um bicho estranho. O cabelo amarelo da mulher, a calça jeans do senhor e as flores púrpuras da velha cumprimentaram-se orgulhosos "Veja como somos bacanas! Hoje evitamos que os pobres cães se machucassem!". Escrito por Carolina às 01:22 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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